A história da caipirinha PDF Imprimir E-mail
O drinque que é um símbolo nacional se reinventou com os anos e hoje apresenta versões que usam e abusam da diversidade das frutas brasileiras.

Quando se fala em Brasil, qualquer gringo arrisca algumas palavras em um português carregado de sotaque: “Caipirinha! Feijoada! Carnaval!”. A bebida tradicionalmente preparada com limão, cachaça, gelo e açúcar é um símbolo da cultura brasileira no mundo – ainda mais se acompanhada de uma boa "feijuca", no Carnaval. Há muitas histórias sobre sua origem. A mais conhecida é uma que começa por volta de 1918, no interior do estado de São Paulo.
 
Segundo a informação, a caipirinha como conhecemos hoje teria sido criada a partir de uma receita popular feita com limão, alho e mel, indicada para os doentes da gripe espanhola – e que, hoje, nós ainda usamos para espantar pequenos resfriados. Como era bastante comum colocar um pouquinho de álcool em todo remédio caseiro, a fim de acelerar o efeito terapêutico, a cachaça era sempre usada. “Até que um dia alguém resolveu tirar o alho e o mel. Depois, acrescentaram umas colheres de açúcar para reduzir a acidez do limão. O gelo veio em seguida, para espantar o calor”, explica Carlos Lima, diretor executivo do Ibrac (Instituto Brasileiro da Cachaça). Foi só uma pessoa dar o primeiro gole que a invenção caiu no gosto popular – e nunca mais saiu.

Caipirinha, caipirosca, caipilé... 

Como já é de praxe, a criatividade se uniu à tradição. Hoje, nos bares brasileiros é possível encontrar a bebida em várias versões. Uma delas, que pegou na capital paulista, é a caipilé – além das frutas picadinhas, a caipirinha leva um picolé que, aos poucos, vai se dissolvendo e dando cor e sabor à bebida (veja a receita a seguir). 

No verão, a variedade de frutas aumenta e possibilita combinações inusitadas. No Bar Veloso, por exemplo, que ganhou fama em São Paulo por conta de suas caipirinhas caprichadas, as opções variam da tradicional, com limão, até a de jabuticaba, romã e tangerina com pimenta. Há seis anos no bar, o barman Deusdete Souza tem um histórico de 20 anos na preparação do drinque. É ele um dos maiores responsáveis pelas mesas diariamente lotadas. “Em um sábado, chego a fazer 600 caipirinhas. E é tudo ao vivo e a cores! Um dos segredos é descascar e cortar as frutas na hora”, revela. 

Para o barman Tiago Oliveira, do bar paulistano Pirajá, não se pode economizar no gelo. “Caipirinha boa, tem que ser bem gelada”, explica ele. “Também faz diferença macerar as frutas bem devagar, principalmente o limão, para não amargar”, completa. Souza alerta para o uso de canudinhos: “Tem gente que pede para colocar, mas o certo é usar só um mexedor. Sem o canudo, você consegue sentir todos os sabores ao mesmo tempo”. 

Outro embate é na hora de escolher o destilado. Alguns defendem o uso da cachaça até o fim. “Caipirinha autêntica precisa ser feita com cachaça. Essa é a verdadeira”, enfatiza Lima, do Ibrac. Já Souza, mesmo que prefira a versão feita com a caninha, não vê problema algum em partir para outras alternativas. “Tem gente que acha muito forte, não gosta. Então uso vodca ou saquê”, diz. 

O importante, mesmo, é saber dosar os ingredientes. Tem fruta que já é muito doce, como a jabuticaba e a tangerina, e só precisa de um pouquinho de açúcar. Algumas, como o maracujá, são muito fortes e acabam dominando o sabor de outras. “Quando esse equilíbrio é alcançado, cliente nenhum deixa o garçom tirar o copo da mesa antes de devorar cada frutinha que sobra no final”, brinca Souza.
 
 
Fonte: Ana Ferrareze (Casa e Jardim)